Pela 1ª vez em duas décadas, juros seguem elevados mesmo com inflação em queda
Jhonatan Marques
21 de março de 2023
Pela primeira vez desde o início do regime de metas para a inflação no Brasil, em 1999, a Selic, a taxa de juros de referência da economia, parou, nos últimos meses, de responder aos movimentos do IPCA, o indicador oficial de preços do país.
O IPCA, Índice de Preços ao Consumidor Amplo, está em queda desde abril do ano passado, quando atingiu seu maior nível em 19 anos e chegou a 12,13% no acumulado em 12 meses.
A desaceleração nos meses seguintes foi bastante veloz e, ao término de 2022, a inflação já tinha caído a menos da metade. Em fevereiro, levantamento mais recente, ficou em 5,6%. Já são dez meses de recuo.
Em todo esse período, porém, o Banco Central, o responsável pela Selic, não fez nenhum corte na taxa, além de ainda tê-la elevado mais nos primeiros meses depois que a inflação já tinha parado de subir.
É normal haver um pequeno atraso entre o movimento da inflação e a decisão do BC de mexer nos juros, já que as variações de um mês ou outro podem estar ligadas a um choque passageiro ao qual a Selic não necessariamente precisa reagir.
É a primeira vez, no entanto, que os juros ficam parados por um período tão longo, mesmo com o IPCA já tendo mudado de direção há tempos.
Foi também a primeira vez, desde 1999, que o BC ainda elevou os juros, em vez de pausá-los, logo depois de a inflação parar de subir.
Entre pequenas defasagens, as duas variáveis tradicionalmente andam juntas, tanto para baixo quanto para cima.
Acúmulo de problemas
A explicação para o fenômeno, de acordo com economistas consultados pela CNN, passa por um encontro de diversos fatores que, em sua visão, justificaram uma vigília extra por parte do Banco Central.
Nenhum desses elementos é totalmente inédito para um país com passado inflacionário como o Brasil. Mas em poucos ou nenhum momento anterior todos eles tinham se colidido ao mesmo tempo ou com a mesma intensidade de agora.
A lista é longa. Uma inflação mais rígida que as do passado, de alcance global, vinda de um patamar extremamente alto, “maquiada” por uma série de desonerações, sem perspectiva de novas quedas no horizonte e ainda bem distante da meta que deveria cumprir, que é hoje também mais baixa, forma o conjunto das principais razões mencionadas pelos economistas para o descolamento que passou a acontecer entre a Selic e o IPCA nos últimos meses.